[Série Luso-Brasileiros] Conheça a história da Maria Cristina

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Encerramos hoje a nossa Série Luso-Brasileiros, um projeto publicado entre os meses de setembro e novembro, sempre as terças, que reuniu bonitas histórias de diversos leitores do Cultuga. Em comum, todos que por aqui passaram cultivam suas raízes dos dois lados do Oceano, com muito carinho e orgulho.

O depoimento que vai fechar a série é o da Maria Cristina dos Reis, que vive em Bauru (São Paulo). O avô paterno, os Sr. Manuel Antônio dos Reis (o senhor fofíssimo, que está no topo desse post), e os bisavós, José dos Reis e Adelina Conceição dos Reis, viviam na aldeia de Murtal, no concelho de Vila Nova de Ourém, distrito de Santarém, no centro de Portugal.

Seu avô Manuel chegou ao Brasil no dia 22 de janeiro de 1927, quando já tinha mais de 20 anos de idade. Primeiro, ele formou sua base em Brasília Paulista, no interior de São Paulo. Mas ainda passou por Cabrália Paulista, até fixar residência, definitivamente, em Bauru.

Perguntei a Maria Cristina o que ela sabe sobre a aldeia e a história da sua família. Ela disse:

“Onde meu avô nasceu, a vida era difícil. Aos 20 anos de idade, ele saiu de Portugal para trabalhar na França, afim de labutar em minas de carvão, perto de Paris.

O meu avô e seu irmão, José dos Reis, que já estava no Brasil, e residia em Brasília Paulista, se comunicavam por cartas. O José trabalhava com o fornecimento de lenha para a Cia Paulista de Estradas de Ferro, cujos os trens, na época, eram ainda tracionados por Locomotivas à vapor.

Com a oportunidade de trabalho, meu avô veio e instalou-se em Brasília Paulista. Posteriormente, passou a tomar conta do lenheiro. Transcorrido algum tempo, mudou-se para Cabrália Paulista e lá passou a fornecer madeira também para a Cia Paulista de Estrada de Ferro.

Depois, abriu uma sociedade, montando uma pequena casa de comércio alimentícios em geral. Progredindo nessa sociedade, ele e o sócio começaram a comprar e vender café. Assim, foi crescendo em suas atividades comerciais, passando a ser vitorioso no campo do trabalho.

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Documentos históricos do avô

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Em Cabrália, casou-se com Maria Bigaton Roberto, de raízes italianas, cujo pai nasceu em Abruzzo e a mãe, em Veneza. Lá, tiveram quatros filhos: Américo (meu pai), Achilles, Adir e José.

Ele vinha a Bauru com frequência, pois aqui havia a oportunidade de novos mercados, identificado com o seu trabalho em Cabrália.

Relutou em atender o pedido dos familiares para mudar-se para Bauru, mas acabou se curvando aos anseios da mulher e dos filhos, pois necessitavam de melhores estudos. Vendeu ao sócio sua parte do café, e mudou-se.

Chegando, abriu o mesmo comércio, e prosperou.

Voltou a Murtal uma única vez para rever os pais, já muito velhos. Deixou pra trás as irmãs: Maria Adelina, Maria Joaquina e Maria da Graça. O único irmão já estava no Brasil.”

A família reunida

A família reunida

Com uma história de tamanha coragem e luta, Maria Cristina se inspira. Entretanto, ainda não pode conhecer Portugal.

“Nunca estive em Portugal. Faz muito tempo que sinto uma enorme vontade de conhecer o país. Desde da adolescência, ouço falar em Fado, Fátima, sardinha…

Sobre Murtal, já procurei via Internet, fotos, mapas, a estrada de Fátima e os arredores. Não sei se ainda tenho parentes por lá. Gostaria muito de saber e, se possível, manter contato.”

A leitora Maria Cristina, neta dos senhores da foto, que abre esse post

A leitora Maria Cristina, neta dos senhores da foto que abre esse post

Obrigada pelo carinho e por dividir a sua história conosco, Maria Cristina! Esperamos que você possa conhecer, para breve, a terra da sua família!

Agradeço também a você, que acompanhou cada depoimento da Série Luso-Brasileiros. O espaço continua aberto, dentro da categoria “Você”, aos leitores que desejam contar suas descobertas e paixões por Portugal, seja relacionado a família, a uma experiência ou uma viagem ao país 😀 É só escrever para a gente!

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Sobre o autor

Priscila Roque

Sou jornalista especializada em cultura e fotógrafa. Foi preciso passar dos 30 anos para assumir que Lisboa é, realmente, o meu lugar no mundo. Mas a paixão por Portugal começou bem mais cedo, ainda na adolescência, quando descobri alguns músicos locais. Os meus pais são portugueses imigrados no Brasil. Depois de fazer o caminho inverso deles, trocando São Paulo por Lisboa, quero agora, com o Cultuga, diminuir a distância que separa o Brasil de Portugal.

6 comentários

  1. Maria Cristina Dos Reis em

    Eu lhe agradeço pelo maravilhoso Post, Adorei! Com certeza irei conhecer a aldeia de Murtal, e esse belíssimo país e o povo português! Muito admirado por mim! Pois o mundo deveria aprender várias coisas com esse povo. Cozinhar é uma delas, pois não só os doces que são maravilhosos, assim como a comida que agrada a tantos. Mais do que isso, aprender se relacionar com a terra.Talvez o pequeno território permita saber o trajeto dos alimentos até sua mesa. Mantendo assim a tradição das receitas típicas das aldeias, das famílias ligadas a terra, e de não permite que seu passado escoe rapidamente pelos dedos. E se alguns dizem que o país vive do passado, digo que é isto que o faz ter raízes tão fortes e tão profunda! Muito Obrigada por permite nos contar as tradições de nossas histórias ligadas a esse povo, que sabe olhar o mundo de dentro para fora, que não vive centrado em si próprio mas não ignora questões internas , priorizando o que vem de fora, como tantos países colonizados!

  2. Maria Cristina Dos Reis em

    Obrigada, Priscila! Para você também, um ano cheio e repleto de muitas descobertas nessa terrinha maravilhosa!

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