[Série Luso-Brasileiros] Conheça a história da Marly Fernandes

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Hoje é terça-feira e temos mais uma história da série Luso-Brasileiros no ar. É por aqui que passeamos por aldeias e, mesmo com a distância de estradas e um oceano imenso, descobrimos tantas semelhanças.

Veja o depoimento da Marly Fernandes, que compartilhou um texto muito carinhoso com a gente:

“Quando eu era criança, Portugal era um lugar muito distante, inalcançável, cheio de personagens importantes, lugar de reis e rainhas que haviam decidido os destinos de nosso país. Jamais imaginei um dia ir até lá.

Na minha cabeça, era um lugar de heróis, de homens corajosos, que se lançaram em grandes perigos para descobrir novas terras e, assim, via minha vida totalmente ligada a eles, uma vez que eu morava aqui, no Brasil. Era também, um lugar povoado pela minha imaginação, atiçada pelas histórias que o vovô contava, especialmente da infância dele. Ele falava com carinho de um lugar que parecia ser encantador, mas onde tinha, cedo, começado a trabalhar… Com sete anos, dizia ele, já se podia tomar meio copo de vinho à hora do almoço…

Conforme fui crescendo, não conseguia muito entender por que, mesmo tendo tanto amor pela “terrinha” e falar dela com visível saudade, o vovô José nunca admitiu lá voltar para passear, rever parentes, conhecer o irmão caçula, mesmo tendo condições econômicas para isso. Certamente, tinha um amor extremado pela família: deu o nome de dois de seus irmãos aos filhos Antonio e Armando (este para homenagear o irmão que nasceu um ano depois de sair de lá), mas nem isso parecia ser suficiente para que desejasse voltar.

Amava o Brasil de paixão e dizia, então, que ‘agora, aqui é o meu país’. Se a minha memória não falha, naturalizou-se brasileiro já com alguma idade, próximo de setenta anos, para firmar esse amor.

Veio para cá com 18 anos, para evitar o exército e a guerra (seu aniversário era em março e a Primeira Guerra Mundial estendeu-se até novembro de 1918), trouxe o irmão Antonio, um ano depois, e o que sei é que muito trabalhou. Construiu um patrimônio razoável, com suor e labuta, junto com a vovó. 

Sempre me admirei da sua grande força em nunca mais olhar para trás. Acho que a viagem [feita em abril/ 2012]me permitiu retomar tudo isso e compreender melhor.

Fomos a Portugal unicamente para conhecer o lugar onde nasceu vovô José. Tínhamos pouquíssimas informações, a não ser o nome da localidade: Penela.

Encontramos uma cidadezinha muito pequena, diria uma aldeia, mas que tem um castelo medieval, pequeno, é verdade, mas com muralha, fosso e resquícios de uma catapulta. Subir no ponto mais alto da muralha proporcionou uma visão incrível do vale! Pura beleza, de deixar a gente sem folego!

Fomos até o cartório local e perguntamos como seria possível conseguir o registro de nascimento de meu avô, para tentar localizar o lugar exato de seu nascimento. O cartorário, simpaticíssimo conosco, ficou de conseguir a informação em livros que migraram da Igreja (registro de batizados) para o Cartório.

Meu avô nasceu em 1900, então vocês poderão imaginar como seria difícil obter essa informação… Lembrem-se que o país, além de tudo, passou por duas guerras.

Almoçamos em um pequeno restaurante, com comida boa e barata. Haja estômago para tanto bacalhau e vinho!

A volta ao cartório foi de grande expectativa, pontuada pela emoção de ver o cartorário pegar um livro bem antigo, com registros de nascimentos: em 1900, meu avô estava sob o número 25: José, filho de Manoel Rodrigues e Maria José, nascido em Quinta dos Freixos.

No cartório

No cartório

Afff! Haja coração!

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Com muita boa vontade, o cartorário havia se informado com outras pessoas sobre onde poderíamos localizar a Quinta dos Freixos.

Ficava entre Infesto e Pastor! Colocamo-nos a caminho.

Em Pastor, poucos minutos de estrada, perguntamos em um restaurante à beira da estrada e ninguém parecia conhecer nada a respeito. Um senhor me disse que procurasse pertinho dali, por Dona Hermínia: “Vire na ponte amarela, ande duzentos metros, irás encontrar um pequeno estabelecimento, nele haverá duas portas e uma delas haverá de estar aberta. Lá há uma senhora pequenina, vestida de preto, que por certo saberá o que queres saber, se for aqui por perto”.

Logicamente, encontramos tudo como ele descreveu.

Entrei, me apresentei e perguntei se sabia de um lugar por ali, chamado Quinta dos Freixos. “Ora, pois, está logo aí à frente.” E saiu à porta do bar, me apontando um grande campo com muitas flores do campo, especialmente uma flor vermelha, pequena, muito parecida com nossa “crista de galo”. Adiante, várias ruínas: uma casa grande, um moinho, mais duas ou três pequenas casas, que depois entendi serem abrigos para ovelhas e bois.

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A emoção maior veio, com ela a nos dizer que ali moraram Manoel e Maria, que ali tiveram seus filhos, cultivaram a terra, até falecerem. E aí vários nomes, descrições, emoções, choro – acho que podem imaginar.

Logo, uma segunda senhora juntou-se a nós, quando viu a movimentação ao redor das ruínas. Agora, recebemos informações gerais sobre o local e os proprietários. 

E soubemos de uma prima do papai, que mora mais adiante, perto de uma pequena igreja.

Lá também a encontramos e muito mais choro, abraços, nomes, lembranças. Certamente, se a viagem tivesse terminado ali, tudo teria valido muito a pena.

Entrar em contato com lugares, acontecimentos e pessoas ligadas à história do meu avô trouxe junto uma sensação diferente, que ainda não sei definir. E, junto, uma grande certeza de ser muito amada e privilegiada.

Tudo o que pode definir o que senti é: uma grande ternura, imenso amor.

Encontrar a Quinta dos Freixos e as duas senhoras que nos deram informações sobre o local e sobre nossos antepassados ajudou a alinhar muitas coisas para mim.

A Quinta dos Freixos era um lugar de grande prosperidade, pertencente a uma família riquíssima, os Peres, que moravam – segundo dona Hermínia – em um palácio, que tinha até, em sua entrada, os brasões das armas da família.

Nossos bisavôs eram caseiros no lugar. Cuidavam, junto com os filhos, do gado, das ovelhas, das plantações. Lá também havia um lagar, um moinho, onde se fazia azeite. Não sei dizer, pois não compreendi, se eles tinham participação nessa atividade também.

Dona Hermínia e dona Gertrudes, as duas senhoras portuguesas que guardam lembranças de nossa família lá, foram unânimes em dizer que a riqueza dos Peres foi se deteriorando e eles passaram a arrendar a terra. Depois disso, veio a venda de pequenos terrenos e a terra foi passando para outras mãos.

Mas nossos bisavôs moraram lá, junto com o filho caçula, Armando, que também constituiu família, até falecerem.

A casa, como vocês viram em fotos, era sólida e relativamente grande. Com o casamento do caçula, foi dividida ao meio e compartilhada pelas duas famílias. As filhas de Armando, Marília e Maria Isabel, também ajudaram a cuidar da terra, até se casarem. Armando, faleceu prematuramente, com 54 anos, e ainda morava no lugar. Portanto, em 1973 a casa ainda era habitada.

O encontro com a prima Marília permitiu compreender mais algumas coisas.

Na conversa entre ela e o papai, veio à tona um fato que eu tinha vagamente ouvido falar, na minha infância-adolescência, mas que tinha ficado esquecido em algum cantinho da memória.

O bisavô Manoel tinha morado no Brasil, por cinco anos. Aqui teve um “caso”. Não sei se aqui constituiu família, mas sei que essa era uma grande mágoa do vovô, a de que o pai, estando aqui, havia esquecido a família e desapontado a esposa. Voltou porque ficou doente e encontrou alguma alma benevolente, que financiou a sua volta a Portugal.

Não sei precisar os anos em que essas coisas aconteceram. O fato é que o bisavô Manoel voltou para a família e foi acolhido.

Não sei o peso que isso teve na decisão do vovô José em escolher o Brasil como lugar para “fazer” a vida. Mas tenho noção, pelas minhas lembranças, da grande adoração que nutria pela mãe. Imagino a força dessa mulher, a bisavó Maria José, em cuidar sozinha da família, em uma vida dura no trabalho na terra e com o gado… Posso avaliar, hoje, o que deveria se passar no íntimo do coração de nosso avô-criança.

Nossa bisavó Maria José morreu em 1965, segundo Marília. Lembro-me de meu pai e tios falarem da grande tristeza do vovô com a morte da mãe e das lágrimas nunca antes vistas em seu rosto.

Passa a fazer muito sentido, que ele nunca tenha querido voltar…

Viajar para Portugal trouxe uma grande consciência de como a vida vivida com dignidade e simplicidade pode gerar grandes frutos, descendência íntegra, e sedimentar valores fundamentais, alicerçados em rocha firme e inabalável.

Nosso avô teve uma vida dura, difícil e tudo o que me lembro dele é permeado por extrema doçura, gentileza, afabilidade, hospitalidade.

A vida dura não o endureceu…

A vida rude não o embruteceu…

Os bens e o poder aquisitivo que possuía não o afastaram da vida simples do sítio.

Numa época em que se tinha filhos para labutar na roça e ajudar na sobrevivência, teve grande visão e abnegação ao enviar os filhos para estudar. Queria para eles uma vida diferente. Aos filhos mais velhos, penso eu, a distância dos pais deve ter sido um grande peso, pela dor da ausência materna e paterna, mas acho que a vida se incumbiu de mostrar que, verdadeiramente, o que o pai desejava era oferecer melhores oportunidades de vida. Assim foi.

Finalmente, a viagem me proporcionou, além do encontro com as raízes “portugas”, a delicadeza do convívio com meu pai, meu irmão e minha filha. Nos divertimos muito, demos muita risada juntos, vivemos situações hilárias mesmo. Vivemos também profundas emoções, na descoberta da Quinta, no encontro com as portuguesas e com a prima Marília.

Ir partilhando cada momento com os familiares também foi me dando uma intensa percepção do quanto somos todos visceralmente ligados e do quanto nós nos amamos e estamos presentes na vida uns dos outros, mesmo quando o encontro pessoal não é possível ou tão constante.

Quanto aos meus devaneios infantis com Portugal (ah, Portugal!), digo que é mesmo um lugar lindo, encantador, cheio de cantinhos e muitas cidadezinhas pequenas, cheias de lembranças e ruínas de um longo tempo passado.

Muito tempo depois de ter voltado para o Brasil eu ainda sonhava que estava lá. Certamente, fruto de tantos sentimentos experimentados. A sensação era de saudade. Saudade de um querido, que se chama vovô José.”

Obrigada por compartilhar conosco a sua história tão rica e tão bonita, Marly! Me emocionei com o seu relato :D


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Sobre o autor

Priscila Roque

Sou jornalista especializada em cultura e fotógrafa. Foi preciso passar dos 30 anos para assumir que Lisboa é, realmente, o meu lugar no mundo. Mas a paixão por Portugal começou bem mais cedo, ainda na adolescência, quando descobri alguns músicos locais. Os meus pais são portugueses imigrados no Brasil. Depois de fazer o caminho inverso deles, trocando São Paulo por Lisboa, quero agora, com o Cultuga, diminuir a distância que separa o Brasil de Portugal.

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