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Sempre que ele vem, deixa saudades. O importante é que António Zambujo também sempre volta ao Brasil para a alegria de todos os apaixonados pela música portuguesa. E essa é a boa notícia de hoje. A pouco, o jornalista brasileiro José Norberto Flesch postou em seu Twitter que o português já tem data programada para São Paulo. Fui ao site oficial dele para confirmar e encontrei também uma data para o Rio de Janeiro.

Encaixá-lo em um único estilo não seria uma tarefa fácil. O músico é conhecido no Brasil por apresentar uma espécie de fado contemporâneo, mas não somente isso. Em suas canções, traz referências da música tradicional alentejana e até mesmo da Música Popular Brasileira.

António Zambujo nasceu em Beja, na região do Alentejo, em meados dos anos 1970, mas mudou-se para Lisboa assim que decidiu se tornar cantor profissional. Uma das principais características de suas músicas é a forte influência que traz de raízes locais, marcada pela harmonia de vozes e a cadências das frases.

António Zambujo faz uma versão acústica para “Lambreta”

No ano passado, entrevistei o Zambujo para o portal de cultura da Livraria Saraiva, o SaraivaConteúdo. Veja como foi esse bate-papo:


Encaixá-lo em um único estilo não seria uma tarefa fácil. O músico português António Zambujo
é conhecido no Brasil por apresentar uma espécie de fado contemporâneo, mas não somente
isso. Em suas canções, traz referências da música tradicional alentejana e até mesmo da
Música Popular Brasileira.

António Zambujo nasceu em Beja, na região do Alentejo, em meados dos anos 1970, mas
mudou-se para Lisboa assim que decidiu tornar-se cantor profissional. Uma das principais
características de suas músicas é a forte influência que traz de raízes locais, marcada pela
harmonia de vozes e a cadências das frases.

Ao escutar suas palavras, percebe-se que as vogais que pronuncia são bem abertas e,
eventualmente, faz uso do gerúndio – uma profunda identificação com seu local de
nascimento e que se assemelha muito com o Brasil.

Em sua última visita ao País – no mês de setembro, passou por São Paulo e pelo Rio de Janeiro
para lançar o mais recente trabalho, o Quinto. No fim do ano, ele retorna
para mais shows, desta vez, relacionados ao Ano de Portugal no Brasil.

Por telefone, ele falou ao SaraivaConteúdo sobre o carinho que tem pela música brasileira e
ainda explicou como as influências atuam em seu trabalho. Acompanhe!

Você nasceu no Alentejo e, em todos os seus discos, há referências à música alentejana. Quais são essas características que você traz em seu trabalho?
António Zambujo. Essas referências estão, principalmente, no meu modo de cantar. Depois,
muitas das melodias que crio, muitas das músicas que faço, são influenciadas pela música
tradicional.

Como é caracterizada essa música do Alentejo?
António Zambujo. Ela tem uma tradição de canto polifônico. Inicialmente, eram dos coros de
igreja, depois, passou a ser um canto de trabalho. Ou seja, os homens criavam as melodias e as
letras enquanto trabalhavam no campo. Essa é sua origem. A região do Alentejo tem
características que mais nenhuma outra em Portugal tem, inclusive das próprias pessoas. Há quem diga que o alentejano tem muitas coisas parecidas com o baiano – que é assim meio
“mole”, parado, lento, tranquilo, calmo, sereno… Para te situar melhor, a música alentejana,
as melodias, há quem me diga que é uma coisa meio seresteira.

O seu sotaque é bem aberto, lembra muito a forma de falar dos brasileiros…
António Zambujo. Essa é outra característica do alentejano. O sotaque mais aberto em relação
aos das demais regiões portuguesas. Por falarmos com as vogais mais abertas, é mais
perceptível, entendível. Mas há outras coisas parecidas com o brasileiro, como, por exemplo,
usarmos muito o gerúndio.

Você já esteve muitas vezes no Brasil. Quando vem ao País, o que mais gosta de levar daqui?
António Zambujo. Levo muita música. Muita música! Já fui ao Brasil várias vezes – como você
disse -, então tenho muitos amigos em São Paulo e no Rio de Janeiro. A sensação de estar em
São Paulo, que é uma cidade um pouco impessoal, uma cidade muito grande, para mim, já é
como se estivesse em casa. Sinto-me protegido. Tenho amigos que me recebem, me tratam
bem e que também me levam para ver coisas interessantes. Desde 2008, vou ao Brasil de duas
a três vezes por ano.

O público brasileiro parece sempre tratar a música portuguesa contemporânea como uma novidade. Você sente isso nos trabalhos que lança por aqui e nos shows que já apresentou?
António Zambujo. Percebo que há um pouco das duas coisas. Porém, o Brasil é um país muito
grande. Fica difícil conquistar tudo só de uma vez, não é? Acho que, cada vez que vou aí,
também sinto que cada local tem seu determinado publico, e que poucas vezes se mistura.
Vou dar um exemplo: em São Paulo, toquei primeiro no Bourbon Street. Depois, no Sesc Vila
Mariana. O público do Sesc não vai ao Bourbon. Desta vez, me apresentei no Tom Jazz. O
público já é outro, completamente diferente, apesar de saber que algumas pessoas já tinham
me visto em outros lugares. Entretanto, há muitos que veem pela primeira vez. É sempre uma
receptividade ou uma reação diferente.

O que você julga ser a maior dificuldade ou desafio dos músicos portugueses no mercado
brasileiro?
António Zambujo. Eu acho que não tem uma formula. Cada músico deve apresentar a sua
música e é aquilo que ele tem para dar. O público aceita ou não. O publico é soberano, não
tem truque.

A música dos fadistas contemporâneos é muito consumida em diversos países do mundo, como a França e o Japão. Por conta da língua, ela poderia entrar de uma maneira mais fácil no Brasil?
António Zambujo. Creio que isso seja uma coisa natural, pois estamos falando de Brasil.
Apesar de falarmos a mesma língua, o Brasil, por excelência, é um país de música. É um país
exportador de música, não importador. Logo, não é fácil – para quem vem de fora – conseguir
entrar no Brasil. Vocês têm aí tanta qualidade, é tão bom, tão variado, que ficam com pouco
tempo ou pouca disponibilidade para receber outras coisas de fora. Há casos em que se tem sorte. Eu tenho tido sorte. Faço muitos concertos e a receptividade do público é sempre muito
boa. Mas, no geral, eu acho que fica complicado.

O fado atual agrega uma porção de influências que os músicos resgatam de viagens e turnês que fazem ao redor do mundo. Como você enxerga esse estilo musical, tão tradicional, mas que parece se adequar facilmente a essa época?
António Zambujo. Isso tem muito a ver também com as opções de cada interprete. Cada
músico acaba por trazer outras influências, não é? E isso, por um lado, traz mais público. Por
outro, faz com que a música cresça. Uma música tradicional, como é o fado, o samba, o tango,
se vive fechada na tradição, acaba por definhar e morrer. No caso do fado, o que fez com que
ele crescesse nos últimos anos, começando na década de 1990, e depois ganhando maior
consistência a partir de 2000 – curiosamente depois da morte de Amália Rodrigues, a grande
diva -, foi diversidade de cada interprete com aquilo que cada um acrescenta à música.

Roberta Sá e Ivan Lins são alguns dos músicos brasileiros que já se apresentaram ou gravaram com você. Como foram esses encontros?
António Zambujo. Parcerias como essas têm surgido bastante, como com Roberta Sá, Ivan
Lins, Rodrigo Maranhão, Moreno Veloso e Vanessa da Mata. Tudo isso é bom. Aproximam os
dois países, mas tem que fazer algum sentido. A música deles precisa ter a ver com aquela que
eu faço e vice-versa. Esses encontros aconteceram em jantares maravilhosos. Durante esses
jantares, houve sempre uma conversa e uma partilha de músicas, uma procura de
identificação com aquilo que um e o outro faz. Ao encontrar essa identificação, surgiram as
ideias, os convites e as propostas.

Quando esteve por aqui em setembro, você encontrou com algum deles?
António Zambujo. Essa minha última passagem no Brasil foi maravilhosa e terminou com um
encontro fantástico com Caetano Veloso, Marisa Monte, Ceu, Martinalha, todos juntos em
uma roda de samba. Um encontro privado. Houve um encontro com Rodrigo Maranhão
também, há sempre várias coisas que surgem sempre que vou ao Brasil, sempre há gente nova
que conheço, há sempre muita gente ligada a música que se interessa em ir ao meu concerto,
a me conhecer e isso faz com que essas parcerias cresçam, não só em numero como também
em qualidade.

O disco Quinto conta com a participação de um músico da banda portuguesa Deolinda, conhecida por seu humor na música tradicional portuguesa. Essa troca entre músicos de estilos diferentes é frequente em Portugal. A que se deve essa facilidade de interação?
António Zambujo. Estou à vontade para falar disso porque não tenho um estilo musical
definido. Não se pode dizer que é fado ou que é música tradicional. Na verdade, é a mistura de
várias influências. Em relação aos parceiros que escolho para participar dos meus discos, são
pessoas que me identifico bastante e que admiro muito por sua genialidade. Essas pessoas
também se identificam com aquilo que eu faço. Logo, fica fácil. Todos os autores que
participam do Quinto são pessoas que conheço muito bem, independentemente do estilo
musical que têm.


Programe-se para os shows já agendados:

Rio de Janeiro
Data: 12 de junho de 2013
Local: Theatro Municipal
Endereço: Praça Marechal Floriano, s/n, Centro
Informações: (21) 2332-9134
Site: http://www.theatromunicipal.rj.gov.br

São Paulo
Data: 13 de junho de 2013
Local: Bourbon Street
Endereço: R. dos Chanés, 127 – Moema
Informações: (11) 5095-6100
Site: http://www.bourbonstreet.com.br

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