Acervo editorial sobre Portugal produzido ao longo de mais de 15 anos e mantido no ar como fonte de pesquisa, inspiração e memória cultural

Apesar do sobrenome, desconheço completamente a origem da miha família. Também não sei dizer exatamente quando foi que surgiu em mim o desejo de conhecer Portugal. Mas, toda vez que eu penso nisso, lembro de uma frase dita por uma professora de geografia da minha quarta série: ‘Portugal foi o pioneiro nas navegações devido a sua posição geográfica privilegiada.’ Achei as palavras tão bonitas e, por anos, me lembrava delas. Até que conheci a literatura portuguesa. A leitura de ‘Os Lusíadas’ me trouxe lágrimas aos olhos (e vários pontos na prova do vestibular).

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Assim crescia em mim o desejo de conhecer essa terra e esse povo que inspirou tanta poesia.

Há sete anos, numa conversa informal em um bar, conheci um rapaz, o Alexandre. Papo vai, papo vem, acabamos ficando juntos e foi quando eu soube que ele havia morado por 10 anos em Portugal. Ele dividiu comigo suas as experiências, vividas dos 13 aos 23 anos, e eu pude entender como havia sido moldado o seu caráter, muito diferente da maioria dos homens. Quando eu soube que fazia 7 anos que ele vivia no Brasil e ainda não havia voltado a Portugal, foi o estímulo que faltava para começar a planejar efetivamente a primeira visita. O nascimento do filho de um amigo muito querido de lá nos fez ver que não podíamos mais esperar.

Ainda lembro quando cheguei a primeira vez: fevereiro de 2009. Eu estava, então, com 22 anos e tinha acabado de passar no vestibular pra veterinária, mas estava meio perdida. Fomos fazer uma trip por vários países da Europa. Porém, assim que o avião pousou no Porto, tive a sensação de estar chegando em casa.

E foi onde me encontrei. A arquitetura portuguesa me é extremamente confortável aos olhos, a língua portuguesa me é suave aos ouvidos e os sabores… Ah! Os sabores desta terra são inigualáveis.

Desde o primeiro momento fiquei apaixonada. Andava por ruas de Guimarães, Viana do Castelo, cidades até então desconhecidas, com a sensação de já ter estado ali muitas vezes. Não sentia como se estivesse conhecendo, mas sim revendo esses lugares. A maneira como as coisas funcionavam era tão diferente do que eu estava habituada, mas me parecia muito natural e até instintiva.

No início, achei que era por causa da novidade. Sabe… Lugar diferente, clima de férias. Mas, a cada dia, mais eu me sentia como parte daquele lugar. E quanto mais eu descobria aquelas ruas, mais eu me descobria.

E assim surgiu uma ideia: fazer uma tatuagem que conseguisse representar tudo o que Portugal significa pra mim.

De volta ao Brasil, passei muito tempo pensando até decidir pela caravela. Representando tanto o contexto histórico e poético do lugar, como toda a experiência que eu vivi, achei que seria o ideal.

Dois anos depois, em julho de 2011, eu voltei para a terrinha. Objetivo: férias no litoral. Um carro e 800 km de costa ao nosso dispor. Pronto. Foi o que bastou, pois o lugar conseguia ser completamente encantador tanto no inverno como no verão. Chegando lá, procurei alguns tatuadores, mas estavam em férias e os estúdios estavam fechados. Voltei ao Brasil frustrada. Eu queria a lembrança das terras lusas, e não sabia quando teria outra oportunidade.

A minha surpresa veio no Natal de 2011. O Alexandre me deu de presente mais uma viagem, dessa vez, para acompanhar a turnê no Pearl Jam na Europa, entre junho e julho de 2012. Ainda sem saber se daria certo, por causa do trabalho e da faculdade, eu comecei a escolher os desenhos. Estava decidida, não ia sair de lá sem ela!

E assim foi… Contatei um tatuador em Guimarães, falei da minha ideia e esperei ele fazer os desenhos enquanto viajávamos pela Europa, seguindo a banda.  Na volta, marcaria a sessão.

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A minha surpresa maior, dessa vez, quem me deu foi o Pearl Jam. A banda lança um poster exclusivo para cada show feito. Eu estava em Amsterdam, na véspera de um dos shows, quando vi o poster do show de Isle of Wight desse ano: uma caravela. Inglesa, porém, maravilhosa… Com traços incríveis, que ficariam perfeios na pele. Pronto. Estava completo. Era um desenho que reuniria as minhas maiores paixões. Bati o martelo. É essa!

Voltei a Guimarães e conversei com o Helder Almeida, do PropriusTattoos. Ele foi maravilhoso, adorou o desenho e sugeriu algumas modificações, entre elas a troca da cor da bandeira, de vermelho para azul, representando a bandeira do primeiro rei português. O maior desafio seria fazer a tatuagem, que tem 22 cm, em apenas uma sessão, pois minha viagem estava chegando ao fim.

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No final, deu tudo muito certo. Numa sexta-feira, 13 de julho, eu entrei no estúdio decidida a fazer a minha homenagem à banda a ao país do meu coração. Levou quase duas horas pra ficar pronta e não podia ter ficado mais linda!

Agora eu tenho, pra sempre, um pedacinho de Portugal comigo, pois esse país faz parte do que eu sou.

Ana Carolina Pereira

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