Acervo editorial sobre Portugal produzido ao longo de mais de 15 anos e mantido no ar como fonte de pesquisa, inspiração e memória cultural

Nessa semana, entrou no portal de cultura da editora Saraiva, o SaraivaConteúdo, mais uma colaboração. Entrevistei o cineasta Sérgio Tréfaut, responsável pelo filme Viagem a Portugal. Conversamos sobre o cinema português atual e, principalmente, a forte atuação que o documentário tem no país.

sergio_trefaut_crédito_divulgação_1

Leia a matéria completa:

No momento em que muito se fala da terra de Cabral, pela concretização do Ano de Portugal
no Brasil, pouco se sabe sobre o cinema lusitano. Apesar das pátrias dividirem a mesma língua,
os sotaques e os investimentos de ambos parecem construir um muro que separa e impede o
acesso as obras de cada um dos países de maneira mais pública, mais cotidiana.

Na última semana, o Rio de Janeiro recebeu a Mostra de Cinema Português Contemporâneo,
na Caixa Cultural. Agora, é a vez de São Paulo. Com curtas e longas que passeiam entre a
ficção, a animação e o documentário, a seleção de filmes privilegiou produções premiadas no
mundo todo que evidenciam temas relevantes da sociedade portuguesa realizadas por
cineastas conceituados como Manoel de Oliveira, Pedro Costa e Miguel Gomes.

Para compreender o que está sendo feito hoje no cinema português, o SaraivaConteúdo
conversou com o cineasta luso-franco-brasileiro Sérgio Tréfaut, que encerrará a Mostra com
seu recente filme, Viagem a Portugal, e vai participar de uma discussão após a exibição.

Filho de pai português e mãe francesa exilados, Sérgio nasceu no Brasil na década de 1960.
Ainda pequeno, vivenciou cenas de violência pela ditadura brasileira. Após ter o irmão
torturado e saber do assassinato de Vladimir Herzog, amigo da família, foi para Portugal, onde
vive nos dias de hoje.

Atualmente, ele é um dos nomes mais fortes do cinema português. O seu documentário
Lisboetas (2004) foi o mais assistido em Portugal e também o que mais tempo ficou em cartaz
nas salas portuguesas. Não é à toa que Sérgio é um profundo conhecedor da cinematografia
lusa, estando à frente de um dos festivais de documentários mais expressivos do país, o
DocLisboa, por muitos anos.

A imigração “forçada” é um tema pertinente em suas produções. Sérgio aposta nessa temática
com o objetivo de ser mais do que um cineasta, mas um cidadão. Por ter uma história tão
intensa com relação às políticas de Portugal e do exterior, busca em seus filmes retratar
narrativas que possam mostrar ao público e até as autoridades uma realidade cega a muitos.

Uma característica bastante peculiar do público português é o grande interesse por ir às salas
assistir aos documentários lusitanos. Não somente pela temática, mas por saber observar o
cuidado estético e poder prestigiar um cinema com mais liberdade, sem influência direta do
circuito comercial.

“Nos últimos 10 anos, houve uma mudança grande no público do cinema nacional. Os
documentários hoje ocupam um espaço privilegiado nas salas e têm até mais espectadores do
que as ficções portuguesas”, sugere Sérgio.

Lisboa: a cidade de todos?

Depois de Portugal ter entrado para a União Europeia, no século XX, sua capital se tornou
porta de entrada para diversos imigrantes. Brasileiros, ucranianos, chineses, paquistaneses,
indianos entre outras nacionalidades passaram a se mesclar aos portugueses, vivendo fora de
guetos e transformando a cidade.

Em Lisboetas são faladas cerca de 14 línguas diferentes. Nesse documentário, Sérgio buscou
questionar se a população imigrante da cidade, mesmo que mesclando culturas diversas,
poderia ser observada como única.

“Fiz um retrato de Lisboa no momento em que ela surpreendeu os portugueses. De repente,
tinham sete jornais em língua russa publicados em Portugal e uma população ucraniana com
350 mil pessoas. Lisboa ainda é a segunda cidade com maior população indiana na Europa e a
população brasileira passou a ser também a maior estrangeira em Portugal”, comenta.

A disparidade entre as construções monumentais dos estádios de futebol para o Euro2004 ou
as reformas na capital para a Expo98 e o uso da mão de obra imigrante, muitas vezes ilegal,
está entre os assuntos observados no filme.

Imigração e preconceito

Entre as produções documentais, Sérgio Tréfaut conheceu uma ucraniana que havia passado
24 horas presa na imigração portuguesa, quando tentava entrar no país com seu marido. Esse
fato verídico lhe rendeu uma ideia para levar seu trabalho também para a ficção. Assim surgiu
Viagem a Portugal, que será exibido no Caixa Cultural, em São Paulo, no próximo domingo, dia
8 de julho.

“O filme mostra como um estrangeiro é interrogado, suspeito de querer ir trabalhar no país
somente com visto de turismo e ainda com todos os preconceitos que pesam sobre uma
mulher bonita – nesse caso – cujo marido é negro e africano. São suspeitas de tráfico humano e
eventual prostituição que estão na cabeça da polícia e dos médicos e que acontece com
grande frequência”, explica.

No cast, atores de renome português embarcaram nesse projeto experimental do
documentarista. “Tive a oportunidade de contar com grandes profissionais, como Maria de
Medeiros (protagonista) e a maior atriz portuguesa de sua geração, Isabel Ruth, que faz a
inspetora da polícia. O marido é o grande ator senegalês Makena Diop, que já esteve em filmes
premiados. É um filme muito simples, foi filmado em 11 dias e bastante conceitual”, conta.

Portugal contemporâneo

Os documentários portugueses estão nas salas, nos festivais e também na televisão
portuguesa. Conquistado com muita dificuldade, esse espaço já está estabelecido. “Só há dois casos de ficções recentes com bastante público, com um cariz literário e educacional. Um é a
adaptação de uma obra de Fernando Pessoa, o Livro do Desassossego. O outro é uma
reconstituição um pouco geográfica da vida da grande poeta Florbela Espanca”, relata.

“Estranhamente Portugal vive um momento em que o público vai mais ao cinema para ver
documentário e tem um carinho não apenas pela temática. Fados, de Carlos Saura, que não é
português, mas fala sobre Portugal e o fado, teve um público importante. Recentemente, teve
o José e Pilar, de Miguel Gonçalves, sobre a relação de José Saramago e sua mulher, Pilar Del
Rio, com sucesso em Portugal e no Brasil. Houve ainda um filme feito por portugueses sobre o
Complexo do Alemão, que também teve muito público. Temos facilidade em motivar o público
para o documentário”, complementa.

Na Mostra, os filmes escolhidos realçam a realidade portuguesa dentro e fora de Portugal e
valorizam o tratamento artístico. “O denominador comum deles é a liberdade na forma,
contrário do que acontece no Brasil. Portugal se beneficia de uma enorme margem de
liberdade (na produção) e isso tem sido reconhecido, principalmente nos últimos anos. Temos
filmes premiados no mundo inteiro”, salienta.

Há uma tradição de coproduções entre portugueses e brasileiros. Entretanto, o filme
geralmente só alcança o país onde a produção é maioritária. “A tentativa de exibição desses
filmes nem sempre ultrapassa a exibição em festivais, tanto no Brasil como em Portugal. Existe
um enorme desconhecimento do público brasileiro acerca do cinema português e vice-versa.
Não há uma frequência do cinema brasileiro nas salas portuguesas”, afirma.

“No Brasil, um filme português precisa de legenda, o que é compreensível e normal. Mas os
portugueses estão acostumados ao sotaque brasileiro pelas telenovelas. Isso não beneficiou
essa penetração brasileira em Portugal”, completa.

Protocolos e incentivos estão em pauta entre os cinemas português e brasileiro,
principalmente quando há coprodução entre os países. “Fica mais na ordem do papel. Chega
no distribuidor e ele não arrisca. Somos todos dominados por um cinema maioritariamente
norte-americano”, finaliza.

Serviço
Mostra Cinema Português Contemporâneo
Data: de 3 a 8 de julho
Local: Caixa Cultural São Paulo
Endereço: Praça da Sé, 111 – 6º andar, Centro – São Paulo, SP
Entrada franca (os ingressos devem ser retirados na bilheteria com uma hora de antecedência)
Acompanhe a programação no Facebook oficial do evento

.