Na última semana tive a oportunidade de conversar com o escritor Nuno Camarneiro, uma das promessas da literatura portuguesa contemporânea. Natural de Figueira da Foz e licenciado em Engenharia Física, ele lançou seu primeiro romance em Portugal, “No Meu Peito Não Cabem Pássaros”, no ano passado. Desde então, divide seu tempo entre o trabalho de formação e essa antiga paixão.
No momento, estuda a possibilidade junto a editoras europeias de traduzir sua obra para o alemão, francês e italiano e está em processo de finalização de mais um livro.
Nuno esteve em São Paulo à convite da editora LeYa para lançar o romance no País dentro da coleção Novíssimos. Com tamanha simpatia e disposição, ele me atendeu para falar sobre o assunto. A entrevista foi feita para o portal de cultura da Livraria Saraiva, o SaraivaConteúdo. Veja como foi:
Sentado em um café no coração de São Paulo, o jovem escritor português Nuno Camarneiro
recebeu a equipe do SaraivaConteúdo para uma entrevista. Com trinta e poucos anos, ele
lança seu primeiro romance no País, No Meu Peito Não Cabem Pássaros dentro da coleção “Novíssimos”, da Editora LeYa.
Assim como sua obra, outros quatro títulos foram escolhidos para atravessar o oceano dentro
dessa seleção que privilegia os destaques da literatura lusitana. Até o final do Ano de Portugal
no Brasil, em junho do próximo ano, mais cinco autores também vão estrear por aqui.
O friozinho que acometeu a capital paulista em meio à primavera brasileira deu um ar bem
europeu ao bate-papo. Engenheiro físico por formação, Nuno ainda exerce sua atividade de
licenciatura. Porém, foi em uma experiência na Suíça que descobriu seu talento pela escrita,
em meados dos anos 2000.
Por sentir falta de interagir com a língua portuguesa em Genebra, sem Internet ou televisão, e
com pouco domínio do francês, ele encontrou em um caderno uma maneira de entender e ser
entendido. Assim, resgatou o gosto pela literatura que traz desde a infância e passou a
escrever contos, poemas e micronarrativas, compartilhadas posteriormente em seu blog, que
mantém até hoje, intitulado “Acordar um Dia”.
Porém, até a publicação de seu primeiro livro, o caminho foi árduo. Munido de diversos contos
que havia escrito, buscou uma editora portuguesa. O gênero, pouco valorizado no país, não
rendeu um contrato, mas sim um desafio: produzir um romance.
Em No Meu Peito Não Cabem Pássaros, Nuno se inspirou em três figuras da literatura que
admira muito: uma personagem de Kafka, Fernando Pessoa e Jorge Luís Borges. Após estudar
as biografias de cada um, imaginou histórias que pudessem ter sido vividas por eles no ano de
1910, quando um cometa passou pela Terra e assustou pessoas no mundo todo.
Em meio a aulas e pesquisas em universidades do Porto e de Aveiro, publica pequenos textos
em revistas e já se prepara para o lançamento de mais um livro. No currículo, editoras europeias interessadas em traduzir sua obra para o alemão, o francês e o italiano e a certeza
de que a literatura não é apenas um hobby.
Com uma carreira tão consistente na engenharia física, quando você pensou que realmente seria a hora de publicar um livro relacionado à literatura?
Nuno Camarneiro. Essas coisas vão crescendo… Comecei a gostar muito de escrever contos.
Então, passei a preparar uma compilação deles, que apresentei a uma editora. Ela gostou
muito, e é até a minha editora atual, Maria do Rosário Pedreira. Porém, me disse que, em
Portugal, não existe um mercado de contos. Conto não vende, é difícil de publicar, ainda mais
para um primeiro livro. Ninguém me conhecia. Ela me desafiou, então, a escrever um
romance. Inicialmente, achei impossível. Um romance seria muito grande e eu não saberia
escrever. Mas a ideia ficou, foi ficando, ficando… Então, pensei: “Bem, eu posso tentar fazer
um romance a partir de contos”. Arranjei uma estrutura que me permitisse fazer muitos
pequenos contos, narrativas de duas páginas, mas que fosse também um romance. Foi um
pouco isso que tentei fazer no meu livro.
Como você chegou aos nomes que protagonizam o seu livro – Fernando Pessoa, Jorge Luís Borges e uma personagem de Kafka?
Nuno Camarneiro. Eu li Kafka muito cedo, quando tinha 12 ou 13 anos. Na altura, não percebi
nada, mas ficou em mim. Era como um vírus, que você apanha e mais tarde vai se revelar. Foi
isso que aconteceu, o vírus da literatura entrou em mim. O mesmo com Borges e Pessoa. Eles
são autores que, quando você lê pela primeira vez, fica deslumbrado e não sabe muito bem o
que é aquilo. É preciso muito tempo para começar a entender e para saber o que é. Esses
foram autores muito importantes no processo de me tornar um escritor. Por isso é que fui os
chamar para o meu primeiro livro.
Há algum recorte de obras desses autores eu seu livro?
Nuno Camarneiro. Diretamente, não. Há só um jogo que eu fiz. Conta-se que Fernando Pessoa
escreveu todos os poemas de O Guardador de Rebanhos em uma única noite. Peguei todos
esses textos, retirei deles duas palavras ou meio verso, e fiz um novo poema. Esse foi o único
que coloquei no livro como se fosse o Pessoa a escrevê-lo.
O que você ouviu de mais surpreendente sobre esse primeiro trabalho?
Nuno Camarneiro. Eu tinha um pouco de receio que o livro fosse difícil ou demasiado
intelectual por vir muito da literatura. Mas a verdade é que tenho ido muito a escolas e ouço
jovens com 15 ou 16 anos, que leram o livro, dizerem que ali estão emoções que eles sentem
também por não estarem adaptados ao mundo, desse desacerto com os outros e a dificuldade
de se comunicar. De fato, esse é um dos temas centrais do livro. Tanto Pessoa como Borges ou
Kafka tinham problemas de relacionamento. Então, descobri que os adolescentes interagem
muito bem com isso e se veem retratados no livro.
Qual foi a sua reação com essa recepção tão positiva do mercado português?
Nuno Camarneiro. Eu faço investigação na área da química, dou aulas em um curso de ciências
aplicadas ao restauro em uma universidade e continuo a escrever. Normalmente, as noites são
para a escrita. Fiquei muito contente com a recepção porque o livro foi lido, as pessoas se
interessaram e acharam que era algo novo, algo diferente. Isso é tudo o que um novo autor
pode querer. Sentir que sua voz é nova e é única. Portanto, nesse aspecto, foi perfeito e me
deu forças para continuar. Agora, no início do próximo ano, já vou lançar o segundo livro.
Já tem algo dessa obra que você possa adiantar?
Nuno Camarneiro. Por enquanto, preferia não falar muito. Ele é diferente, passado nos nossos
dias. Esse é um livro que já não está tanto no universo literário, está mais no nosso universo
real.
Você nasceu em Figueira da Foz e, atualmente, vive entre o Porto e Aveiro. Há algo dessas raízes que respingam em seu texto?
Nuno Camarneiro. Figueira da Foz é uma cidade de praia. Sai de lá aos 18 anos, fui para
Coimbra estudar, depois andei pela Suíça e Itália. Agora, vivo em Aveiro, que é perto de
Figueira da Foz, são 50 km. Portanto, por um lado tem a minha família, sou muito ligado a ela,
e por outro é a questão do mar. Tenho uma relação com o mar muito íntima, me faz muito
bem estar perto dele. Aveiro também fica junto ao mar. É como se a minha casa fosse o mar,
sinto muito isso. Os meus livros sempre têm muito mar e vento. Quando também estou em
uma cidade sem vento, parece que falta algo…
Nesse pouco tempo que você está no País, já viu algo relacionado à literatura brasileira que te interessou?
Nuno Camarneiro. Estou muito atento à literatura brasileira. Uma coisa que já estava
querendo comprar e agora tive a oportunidade foi a Granta, com os novos autores brasileiros. Vou poder descobrir os vossos que ainda não conheço. Isso me interessa muito.


