Vinicius de Moraes: Lisboa tem terremoto

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Para encerrar as homenagens do Cultuga ao centenário do poeta brasileiro Vinícius de Moraes, separamos um de seus textos dedicados exclusivamente a capital portuguesa, “Lisboa tem terremoto…” (sem título). Aqui, ele fala sobre o sismo de magnitude 7.3 na escala de Richter que abalou a cidade em fevereiro de 1969 e sobre as figuras tão emblemáticas de Lisboa que fazem da cidade sua verdadeira atração.

Lisboa tem terremoto
Porém, em compensação
Tem muitas cores no céu
Muitos amores no chão
Tem, numa casa pequena
O poeta Alexandre O’Neill
E a bela Karla morena
Na embaixada do Brasil
Aymé! o mote repete
Lisboa tem terremoto
Mas tem o Nuno Calvet
Para lhe fazer cada foto!
É, eu sei – retruca o mote
Que não me deixa mentir
Lisboa tem terremoto
Não deve nada a Agadir
Mas, já que estamos nos sismos
Capazes de destruir
Tem o ator Nicolau Breynes
Pra gente morrer… de rir
Tem David, irmão de Jayme
E Jayme, irmão de David
Não fossem os Mourão Ferreira
E eu nunca estaria aqui.
Pois é, o mote reclama
Lisboa tem terremoto
Mas tem o fato da Alfama
Tem o sapato do Otto
(Sapato, claro, é maneira
Carinhosa de dizer
Pois fosse o Otto sapato
Eu também queria ser)
E o Otto tem sua Helena
E Helena, seu broto em flor
A nena Helena Cristina
(Ou Maria-Pão-de- Queijo)
De quem eu sou cantador.
Em matéria de Cristinas
Só temos saldo a favor!
Mas, alto! me grita o mote
Mote-mote, mote-moto
Deixe de tanto fricote
Lisboa tem terremoto!
E você? Parta-o um raio!
Terremoto… é natural
Mas e a Terezinha Amayo
E a Laurinha Soveral
E essa coisa pequenina
De quem todo mundo gosta
A sempre altiva menina
Que se chama Beatriz Costa?
E Amália, a grande, a divina
Que é de Portugal a voz
Ela também quando cisma
Não faz tremer todos nós?
E está tudo bem, meu velho
És de Lisboa um devoto
Mas pergunta do Antonio Aurélio
Que é arquiteto e tem teto
Lisboa tem terremoto!
Mas tem, em contrapartida
O Antônio […] da Câmara
Pra lhe contar outra história
Um bom amigo, que em vida
Soube conquistar a glória.
E a Glória tem Terezinha
E tem Wandinha que é um amor
Quem teve brotinhos assim
Não tem medo do tremor.
E tem o Raul Solnado
Que eu acho um senhor ator
Quem tem atores assim
Não tem medo de tremor.

– Lisboa tem terremoto
Geme o mote, ao expirar
– Faz figa! Faz figa, Otto!
Terremoto? Sai, azar!

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Sobre o autor

Priscila Roque

Sou jornalista especializada em cultura e fotógrafa. Foi preciso passar dos 30 anos para assumir que Lisboa é, realmente, o meu lugar no mundo. Mas a paixão por Portugal começou bem mais cedo, ainda na adolescência, quando descobri alguns músicos locais. Os meus pais são portugueses imigrados no Brasil. Depois de fazer o caminho inverso deles, trocando São Paulo por Lisboa, quero agora, com o Cultuga, diminuir a distância que separa o Brasil de Portugal.

2 comentários

  1. Ana Alves de Sousa em

    Boa noite!
    Para as “memórias” do Hotel do Império (hoje Hotel Britania) em Lisboa, pretendia confirmar uma informação que me foi dada há anos pelo actor Raul Solnado, de que Vinícios de Moraes estava hospedado nesse hotel quando se deu o terramoto de 28 de Fevereiro, relembrado no poema “Lisboa tem terramoto …”.
    Grata pela sua ajuda, cumprimenta
    Ana Alves de Sousa

    • Rafael Boro

      Olá, Ana
      Tudo bem?
      Não sabemos dizer pormenores dessa história. 🙁 Caso você confire, passe aqui novamente para nos contar.
      Um abraço!

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