Fado em Lisboa: como escolher a melhor experiência

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É uma vergonha eu ter demorado tanto para escrever sobre algo tão português e que toca profundamente a minha alma. Quando vou ao Fado, seja em uma tasca, um restaurante ou um espetáculo, volto para casa com o peito cheio, me sinto completa.

E por ter ido a poucos dias ao Museu do Fado, em Lisboa, quando tive a oportunidade de acompanhar o lançamento do disco de um dos fadistas da atualidade que mais gosto, o Marco Rodrigues, decidi dar um basta na falta que um artigo sobre o Fado faz aqui no Cultuga e tomei vergonha na cara ❤

Afinal, o que é o Fado?

O Fado é uma música urbana, cheia de sentimento, que tem seu berço em Lisboa, nos “botecos” (como chamaríamos, se fosse no Brasil), pequenos restaurantes e mesmo nas ruas e pátios dos bairros mais simples e antigos da cidade, como em Alfama e na Mouraria (sabe aquele casario antigo e charmoso que ‘escorre’ por toda a colina do Castelo de São Jorge?).

Miradouro Portas do Sol

Vista de Alfama a partir do Miradouro Portas do Sol

As raízes do Fado, pasme, estão na dança – um assunto ainda discutido entre estudiosos da área que buscam em documentos antigos os diversos usos desta palavra para expressões artísticas.

Pulemos, então, essa parte ainda em discussão e vamos direto para o Fado como a grande voz do povo lisboeta e que não tem lá muita coreografia rs. Este, sim, nasceu de forma espontânea, em meio ao convívio das pessoas e marcou o século XIX.

Homens e mulheres, entre marinheiros, pescadores, velhos, novos, prostitutas, pessoas com ou sem escolaridade – boêmios, se reuniam para cantar dores e amores, protestos, alegrias e também para retratar o dia a dia de um bairro, da cidade.

Costuma-se dizer até hoje que, para cantar um Fado, basta ter alma. Ser profissional e afinado não é, necessariamente, uma palavra de ordem.

Assim, essa forma de apresentá-lo, descompromissada, em meio aos amigos e aos copos, foi chamada de “Fado Vadio”. Ou seja, quando qualquer pessoa pode cantar um Fado.

Painel Fado Vadio, nas Escadinhas de São Cristóvão, na Mouraria

Painel que retrata o Fado Vadio nas Escadinhas de São Cristovão, no bairro da Mouraria

Pelas ruas da Mouraria…

Mas, então, como o é que o Fado chegou a aquela postura mais formal, dentro dos restaurantes – e que, erroneamente, quem não conhece sua história julga como turístico? (ok, infelizmente, alguns espertos também se aproveitam disso)

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O Fado, desde que se tornou Patrimônio Imaterial da Humanidade pela UNESCO, em 2011, está sob os holofotes do mundo e, por isso, também merece respeito em todas as vertentes que colaboram para que esta tradição tão bonita tenha chegado ao mérito e não perca suas principais características.

Ainda no século XIX, um nome importante conectou a música do povo a aqueles mais endinheirados: Maria Severa. Uma mulher que cantava muito bem, frequentava o circuito de prostituição da Mouraria e era muito atraente (veja ela retratada no painel aí de cima, do Fado Vadio). 

Ela é considerada a primeira fadista – um divisor de águas neste estilo musical – pois tamanho talento e carisma fizeram como que ela ultrapassasse as tasquinhas e ganhasse também as festas aristocráticas. E, assim, também inspirou tantas outras pessoas, entre homens e mulheres.

No início do século XX, o Fado já era popular e difundido, inclusive, pelos meios de comunicação. Não estava somente nas tascas ou nas ruas, como também nos palcos dos teatros e nas rádios.

E, de acordo com este material do Museu do Fado, é nos anos 30 que as Casas de Fado começam a aparecer, principalmente no centro histórico de Lisboa – como aquelas que vemos com frequência no Bairro Alto. Aqui, costumamos dizer que se faz o Fado tradicional.

Essa é uma explicação superficial e pontual para que seja mais fácil de entender a transformação do Fado e o valor que todas as suas fases têm. Mas, claro, esse é um universo mais profundo e que também implica em mudanças na sonoridade, na melodia e nos poemas escritos ao longo de sua história.

Vivendo aqui em Lisboa e acompanhando de perto do Fado Vadio aos grandes nomes nos palcos, vejo que esse é um universo amplo, rico e tão bonito.


Amália Rodrigues, a Rainha do Fado (1920 – 1999) – saiba mais sobre o Barco Negro

Sabe o que mais me emociona nessa história toda? Artistas de outros gêneros musicais também fazem parcerias interessantíssimas com fadistas. Assim, trazem essa preciosidade cultural portuguesa para o universo contemporâneo, não deixando o Fado esquecido ou emoldurado em um canto qualquer. Mas, claro, sempre com respeito as suas principais características e raízes.

Painel Amália Rodrigues

Inauguração do painel que retrata a Rainha do Fado, Amália Rodrigues, em Alfama. A obra é de autoria do brilhante artista português Vhils, em parceria com o cineasta Ruben Alves e os calceteiros de Lisboa

Um exemplo muito bacana é esta linda homenagem ao fadista Carlos do Carmo, o primeiro português a conquistar um Grammy. Uma rádio portuguesa reuniu diversos artistas locais para gravar um de seus principais fados: Lisboa Menina e Moça.

Aliás, deixo aqui outra dica para quem quer saber mais sobre o Fado. Há dois anos, fiz um curso com o brilhante pesquisador Rui Vieira Nery, no Centro Cultural de Belém, chamado “Viagens Pela História do Fado”. Para quem deseja conhecer mais sobre o Fado, pode procurar as próximas datas do curso junto ao CCB ou então comprar o livro dele Para Uma História do Fado – um excelente suvenir para quem vai visitar Lisboa.

Conheça também o Fado de Coimbra

Onde ver um Fado em Lisboa?

Vamos ao que interessa? “Mas, Priscila, eu quero ir a um Fado onde os portugueses vão”é uma das frases que mais costumo ouvir e receber aqui nos comentários do Cultuga.

Assim como acontece com o Tango na Argentina ou o Flamenco na Espanha, os portugueses não vão aos Fados de segunda a segunda – apesar de muitos terem enorme carinho pela música, visitam eventualmente casas de Fado e prestigiam, claro, os grandes nomes da atualidade.

Entretanto, se você tem curiosidade em conhecer, considere incluir uma ou duas experiências de Fado no seu roteiro de viagem a Lisboa. Sou suspeita para falar, pois sou apaixonada por Fado e não somente frequento as casas de Fado, como também vou a shows, compro discos, participo de eventos do Museu do Fado, etudooqueeutenhodireito rs.

Experiência de jantar com Fado

Há muitos restaurantes que oferecem um jantar com Fado em Lisboa. Entretanto, é neste universo que também estão aqueles que são aproveitadores e, além de não ter uma boa cozinha, fazem de tudo para explorar turistas, infelizmente, promovendo uma imagem errada do Fado.

Se você quer ter uma experiência genuína, procure por restaurantes que têm tradição ou que são geridos por nomes do universo fadista. É romântico, inspirador e envolvente.

Este é o caso da Adega Machado, a minha casa favorita (sem jabá, é amor mesmo). Ela foi fundada em 1937, fica no coração do Bairro Alto e tem a direção artística do jovem Marco Rodrigues (aquele que está no topo desse artigo e que tive a oportunidade de entrevistar há muuuuuito tempo aqui no Cultuga). Por esta casa, já passaram Amália Rodrigues, Fernando Maurício, Alfredo Marceneiro e tantos outros. Experiência completíssima 🙂 O jantar com Fado aqui custa a partir de 45 euros por pessoa.

Fado em Lisboa: Adega Machado

Apresentação de Pedro Moutinho, na Adega Machado

A dica é ir com tempo, paciência e reserva antecipada, pois o jantar com as apresentações é bem demorado. A reserva com alguma antecedência também pode significar um dos melhores lugares da casa. São várias as entradas dos fadistas ao longo da refeição e, durante a apresentação, o ideal (e mais respeitoso) é permanecer em silêncio.

Uma outra casa bem interessante, um pouco menos formal e levemente mais em conta (sai o mínimo de 35 euros por pessoa e tem bom bacalhau) é a Parreirinha de Alfama. Desde 1963, ela é propriedade da Argentina Santos – fadista nascida no bairro da Mouraria na década de 20.

Fado em Lisboa: Parreirinha de Alfama

Uma terceira opção que deixo aqui é o tradicional Sr. Vinho. Uma casa de 1975, fundada pela fadista  Maria da Fé, que fica fora do miolo central da cidade (ideal ir de táxi), com músicos sempre elogiados. Para um jantar a partir de 50 euros por pessoa.

Atenção antes de ir: obviamente, com o preço que se paga nas casas de Fado, é possível fazer um outro tipo de jantar na cidade, com cardápio criativo ou seleção especial de vinhos. Apesar de serem cozinhas agradáveis, o que se paga aqui é também os músicos e a estrutura local – não somente a comida.

Para ver o Fado Vadio

Quem não se importa em dividir mesa com outras pessoas, comer um bolinho de bacalhau ou um caldo verde e acompanhar com um vinho da casa enquanto vê apresentações de fadistas amadores, o Fado Vadio é uma experiência muito divertida e especial.

Casa de Fado em Lisboa: Tasca do Chico

O meu local de eleição não tem nada de misterioso. É a Tasca do Chico, no Bairro Alto. Eu e o Rafa costumamos fazer a reserva com alguma antecedência, chegamos cedo e ficamos lá até cansar, comendo um queijinho, batendo um papo e tomando alguma coisa (não tem um consumo mínimo. Gastamos, em média 12 – 15 euros por pessoa). É sempre muito cheio, mas vale a pena. Há algum tempo, o ideal era ir as segundas e quantas. Agora, sei que há Fado todos os dias.

É o Sr. João Carlos que atende as pessoas a porta, faz de mestre de cerimônias e também cantarola diversos Fados para abrir a noite. Ao longo do período, outros fadistas se revezam. Porém, o mais bonito que presenciei lá até hoje foi a performance do Sr. Reinaldo Henrique Gonçalves, que tem 90 e tal anos. Sempre que pode, ele sai da linha de Sintra sozinho, de trem, e vai até a Tasca do Chico para apresentar seus fados.

Casa de Fado em Lisboa: Tasca do Chico

Já passava das 22h, quando conversamos com o Sr. Reinaldo Henrique Gonçalves a porta da Tasca do Chico

A Tasca do Chico não é segredinho e não está escondida. Você vai ver nas paredes da casa a razão dela ser tão falada. Não é marketing. É mesmo a amizade que reúne de fadistas amadores e apaixonados por cantar o Fado com os grandes nomes da atualidade que espalham esse gênero musical pelo mundo, como a Mariza, o Carlos do Carmo e a Carminho, por exemplo (há madrugadas pós-expediente, que eles também aparecem para cantar por lá).

Uma outra experiência interessante para quem vai ficar mais tempo em Lisboa, é pesquisar a agenda de dois projetos muito legais que acontecem na cidade: o Clube Lisboa Amigos do Fado (que conheci lendo essa experiência do blog Mãos de Vaca) e a Fadiagem do Tascabeat. Há descontraídas tardes e noites de Fado por essas bandas.

Prestigiar shows de grandes fadistas

Camané

O Camané tem feito o lançamento dos seus discos em parceira com a Fnac Portugal. Pude estar no pocket show de estreia dos três últimos álbuns dele por lá. É uma das melhores (e mais emocionantes) vozes do Fado da atualidade.

Quem chega a Lisboa já com algum repertório de música portuguesa, possivelmente tem interesse em assistir também a shows de Fado. Há sempre apresentações de músicos profissionais, basta ficar de olho nas agendas culturais das cidades que estão no seu roteiro de viagem a Portugal.

Aqui no Cultuga, atualizamos também a agenda do país em artigos mês a mês com destaque especial ao Fado, incluindo alguns dos meus favoritos.

Entre os locais que pude ver shows deliciosos ou pequenas apresentações mais intimistas estão o teatro Tivoli, o Centro Cultural de Belém (que tem ao menos um show de Fado por mês), o auditório do Cinema São Jorge, o Coliseu dos Recreios (uma das salas mais bonitas de Lisboa), além dos pequenos espaços das lojas Fnac e do Museu do Fado.

Show de Fado em Lisboa: Camané

Sou fã, mesmo (e toda a minha família também é rs.)

Ah, e se você quer algumas sugestões de nomes atuais do Fado para conhecer e ouvir, deixo aqui alguns do meus favoritos: os já citados Camané e Marco Rodrigues, as jovens Gisela João, Ana Moura, Carminho e Raquel Tavares, além dos queridos e clássicos Carlos do CarmoMariza ❤

Em 2012, produzi um especial sobre Fado Contemporâneo para a Saraiva, quando tive a oportunidade de entrevistar alguns destes fadistas. Deixo como sugestão de leitura para quem deseja se aprofundar um pouco mais!

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Veja também o índice de artigos do Cultuga para ajudar no planejamento do seu roteiro com muitas dicas, sugestões de rota e outras informações sobre Portugal 🙂

 

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Sobre o autor

Priscila Roque

Sou jornalista especializada em cultura e fotógrafa. Foi preciso passar dos 30 anos para assumir que Lisboa é, realmente, o meu lugar no mundo. Mas a paixão por Portugal começou bem mais cedo, ainda na adolescência, quando descobri alguns músicos locais. Os meus pais são portugueses imigrados no Brasil. Depois de fazer o caminho inverso deles, trocando São Paulo por Lisboa, quero agora, com o Cultuga, diminuir a distância que separa o Brasil de Portugal.

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