Quem acompanha o Cultuga sabe que sou colaboradora do portal de cultura da Livraria Saraiva, o SaraivaConteúdo. Para esse início de ano, fizemos uma pauta muito bacana sobre artistas portugueses que usam o fado em sua fusão musical.
Leia a matéria completa:
O Fado nasceu de uma dança no Brasil com influências africanas. Pelo mar, seus vestígios foram levados para Lisboa e, lá, entre os pequenos bares e bordéis frequentados por marinheiros no século XIX, foi batizado.
Coreografias de lado, reforço nas letras que tratavam da vida daqueles que o cantavam. A solidão e a saudade de quem lidava com as idas e vindas no Rio Tejo eram marcantes. Pouco a pouco, o violão e a guitarra portuguesa também foram incorporados, transformando-se, assim, naquela referência que temos hoje, apresentada ao mundo de maneira única por Amália Rodrigues.
Reconhecido como Patrimônimo Imaterial da Humanidade em 2011, o Fado ainda inspira histórias d’além-mar e traz consigo certa formalidade e o sentimento do povo português. Entretanto, essa imagem já não traduz a música portuguesa atual.
O Fado rejuveneceu e, além de carregar consigo uma nova geração de fadistas que agregam as suas canções influências de diversas partes do mundo, ainda migrou para outros estilos e se tornou inspiração para bandas e músicos, do rock a música erudita – mesmo fora de Portugal.
Veja alguns nomes importantes dessa safra contemporânea que fazem do Fado parte de sua fusão.
1. DEOLINDA

Esse quarteto formado em Lisboa – que esteve no Brasil pela primeira vez em 2013 – traz como vocalista Ana Bacalhau, que não é fadista, mas carrega em sua voz traços desse estilo. A musicalidade da banda passa distante da melancolia e da tristeza do Fado – esses são, na verdade, seus trunfos.
Com canções humoradas e instrumentos misturados de forma criativa, eles incorporam influências de diversas partes do planeta, do pop ao jazz, sobretudo de Portugal, e atualmente são considerados uma das maiores referências do país.
O primeiro álbum da banda, Canção ao Lado, foi distinguido pelo jornal britânico The Sunday Times como terceiro melhor disco do ano na categoria de World Music, em 2009.
2. DEAD COMBO

E se as trilhas sonoras dos filmes de faroeste estivessem cobertas de Fado? Esse é um dos recortes do trabalho produzido pelo duo português Dead Combo, que ainda traz referências do rock, do jazz e das músicas feitas na América do Sul e na África.
Tó Trips e Pedro Gonçalves se dedicam, principalmente, aos instrumentos de cordas. Vestidos de agente funerário e gangster, eles já foram anunciados como “o segredo musical mais bem guardado de Lisboa” durante sua participação no Festival de Cannes, em 2012.
A dupla é respeitada pelos fadistas da atualidade. Eles já dividiram o palco e gravaram com o “Príncipe do Fado”, Camané, e participaram da canção “Esas Lagrimas Son Pocas” da fadista Mísia.
Recentemente, estiveram na Semana Internacional de Música de São Paulo.
3. MADREDEUS

Um dos grupos portugueses de maior destaque no Brasil também tem referências do Fado. Com 25 anos de carreira, o Madredeus ainda traz em suas composições eruditas vestígios de música tradicional portuguesa e música popular contemporânea.
Lisboa é tema presente no trabalho da banda e essa conexão reforça os laços com o Fado. Mesmo depois da saída de Teresa Salgueiro, o grupo permanece ativo – agora com Beatriz Nunes nos vocais.
No País, eles ganharam destaque após serem escolhidos como trilha sonora de Os Maias, com as canções “Matinal”, “Haja o que Houver”, “As Ilhas dos Açores” e “O Pastor”. Em 2008, o guitarrista do Angra, Rafael Bitterncourt, regravou a última canção citada em seu trabalho solo oferecendo-a uma leitura heavy metal.
4. A NAIFA

A Naifa é uma das bandas que mostra o Fado de maneira mais nítida em seus trabalhos, principalmente pela forma que Maria Antónia Mendes impõe sua voz, além da forte presença da guitarra portuguesa de Luís Varatojo – também músico da banda de rock oitentista Peste & Sida. Desde 2004, o quarteto faz uma fusão do estilo com o pop e o eletrônico, produzindo uma sonoridade única.
Durante a carreira, já revisitou antigas canções de outros artistas, como Amália Rodrigues, e tem composições focadas em textos de escritores e poetas da literatura portuguesa – uma outra característica comum ao Fado – como José Luís Peixoto, José Miguel Silva e Adília Lopes.
5. ANTONIO ZAMBUJO

Fadista para uns, músico contemporâneo para outros. Por que não juntar os dois? Antonio Zambujo, por vezes, faz do Fado sua base, mas dentro dele funde elementos de música tradicional alentejana, bossa nova e MPB.
Ao ouvir suas canções, nota-se raízes locais, típicas da região portuguesa do Alentejo, marcadas pela harmonia de vozes e cadências das frases. Outra característica é o seu sotaque, com vogais mais abertas e o uso de algum gerúndio, que nos remete rapidamente à música brasileira.
O artista já esteve algumas vezes no Brasil para divulgar seu mais recente trabalho, Quinto. Curiosamente, nesse álbum, há duas canções escritas pelo guitarrista da banda Deolinda, Pedro da Silva Martins: “Algo estranho acontece” e “Queria conhecer-te um dia”.


