Santo António: 10 curiosidades sobre sua história

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Santo António é uma das figuras mais cultuadas no mundo da igreja Católica. Aos seus fiéis, sua imagem simboliza um homem inteligente, de excelente discurso, bondoso e carismático. Para os lisboetas, o Dia de Santo António é o feriado mais importante da cidade. Desde a noite anterior, muitos habitantes e visitantes se reúnem nas ruas dos bairros históricos ou tradicionais para festejar – com música, sardinha na brasa (e não só) e decorações coloridas.

Quando nos mudamos para Lisboa, em 2013, eu e o Rafa criamos logo uma simpatia pela figura de Santo António e também sua história. Não há uma igreja católica em Lisboa que não tenha a imagem de Santo António em seu interior, isso é fato. Mas, por aqui, ele ainda ultrapassa a fé católica e encanta pessoas que não necessariamente estão ligadas a uma religião. O Santo António é prata da casa e onipresente na vida lisboeta.

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Quer entender o porquê de tudo isso? Veja as 10 curiosidades que reuni aqui sobre a história de Santo António!

10 curiosidades sobre a história de Santo António

1. Santo António nasceu em Lisboa… E morreu em Pádua

Esse é um clássico. Como, geralmente, as pessoas chamam ele de Santo António de Pádua, é comum pensar que se trata de um santo italiano.

Mas Santo António nasceu em Lisboa no finalzinho do século 12 (há quem atribua como data 15 de agosto de 1191 ou de 1195). A casa de seus pais ficava em frente a Sé de Lisboa, junto a uma das principais portas da cidade medieval de Lisboa (naquela época, Lisboa era uma cidade fechada por muralhas – assim como, por exemplo, vemos hoje Óbidos – para te ajudar a visualizar).

Era uma família nobre e, por isso, Santo António também teve largo acesso ao conhecimento. Começou sendo alfabetizado pela escola da Sé Catedral e deu início aos seus estudos teológicos, ao longo de sua adolescência e início de fase adulta, em três locais emblemáticos de Portugal: no primitivo Mosteiro de São Vicente de Lisboa, no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra e no também primitivo Eremitério de Santo Antão dos Olivais de Coimbra (onde se encontra hoje a Igreja de Santo António dos Olivais de Coimbra).

Já em sua fase adulta, partiu em missão para fora de Portugal – a começar por Marrocos, no norte da África. A tradição conta que, no retorno desta viagem, os ventos mudaram o rumo do seu barco e ele foi parar no sul da Itália, onde seu destino seria transformado por completo e ele passaria em peregrinação, conhecendo pessoalmente São Francisco de Assis, caminhando muito e dormindo ao relento, em percursos pela Itália e também pela França. Nunca mais voltou a Portugal. Santo António faleceu em 13 de junho de 1231 em Arcella, junto a Pádua. 

Na época, o terreno da casa de seus pais foi comprado pelo senado de Lisboa (que equivalia a prefeitura) e instalado ali, ao longo dos séculos, templos e igrejas a Santo António. Aquela Igreja de Santo António que vemos hoje por lá, em frente a Sé Catedral de Lisboa, é pós-terremoto de 1755 e guarda um pequeno espaço subterrâneo (cripta) ainda original desta casa, chamado de Quarto de Santo António. Esse espaço pode ser visitado diariamente e de forma gratuita. Ah, e a Igreja de Santo António ainda hoje é de propriedade municipal – a única da cidade que é assim.

Cripta do Quarto de Santo António

Esta é a cripta da igreja, chamada de Quarto de Santo António. Um cômodo que fazia parte da residência original dos pais de Santo António

Fachada da Igreja de Santo António de Lisboa

Fachada da Igreja de Santo António, em Lisboa, construída no local em que Santo António nasceu

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2. Seu nome de batismo não é António

Santo António não nasceu António, foi batizado Fernando Martins de Bulhões. A escolha do nome António já faz parte de sua vida religiosa, na última fase que viveu em Portugal, quando estava no Eremitério de Santo Antão dos Olivais de Coimbra.

Imagem de Santo António

A escolha de António se deve a Santo Antão. É como se, com esta nova identidade, deixasse para trás aquilo que viveu como Fernando e nascesse efetivamente para sua missão espiritual.

3. Fernando Pessoa nasceu no dia de Santo António. E daí?

Fernando António Nogueira Pessoa é o nome de batismo de Fernando Pessoa. Ele nasceu em 13 de junho de 1888. Assim como manda a tradição (e acontece frequentemente até os dias de hoje), as crianças portuguesas são batizadas com nomes duplos e que possam também homenagear o santo do dia.

estatua fernando pessoa lisboa portugal

Estátua do poeta Fernando Pessoa em frente ao Café A Brasileira, em Lisboa

No caso do Fernando Pessoa, ele teve seu nome em uma dupla homenagem ao Santo António. É António e também Fernando. É ainda lisboeta e onipresente nesta cidade. 🙂

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4. Ele nem sempre foi franciscano

Lembra-se quando disse que Santo António teve o início de sua vida religiosa em Portugal? No período em que esteve no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, o domínio era da Ordem de Santo Agostinho. Por isso, curiosamente, ainda hoje – no interior desta igreja – vemos uma imagem de Santo António com um hábito da Ordem de Santo Agostinho, totalmente diferente daquele marrom que estamos acostumados a sua imagem.

Mosteiro de Santa Cruz em Coimbra

Santo António com o hábito do Mosteiro de Santa Cruz – diferente daquele marrom, o franciscano, que costumamos ver. Do lado direito, um detalhe atual do interior do Mosteiro

Para você ter uma noção da importância do Mosteiro de Santa Cruz para Portugal, esta casa religiosa formou muitos dos grandes intelectuais e políticos que fizeram parte da primeira dinastia de Portugal – sobretudo nos séculos 12 e 13.

Santo António tinha enorme paixão pelo conhecimento e não desejava viver em clausura. Depois de assistir a chegada ao Mosteiro de Santa Cruz dos ossos de 5 frades franciscanos que foram decapitados em Marrocos e o culto que gerou-se a volta deles (frei Otto, frei Berardo, frei Pedro, frei Acúrsio e frei Adjuto – canonizados e chamados também de Cinco Mártires de Marrocos), optou por ingressar para a Ordem dos Franciscanos, passando a viver, então, no modesto Eremitério de Santo Antão dos Olivais de Coimbra  (fora do centro da cidade).

Portanto, faz sentido que, diante dessa mudança, deixasse seu o nome Fernando para adotar António.

Para ver Santo António em Coimbra, guarde as informações desse roteiro completo da cidade

5. Em Portugal, Santo António não é só casamenteiro

No dia 12 de junho, há uma tradição dos Casamentos de Santo António em Lisboa que acontecem na Sé Catedral desde 1958. São casais com dificuldades financeiras que têm a oportunidade de receber a bênção do casamento na principal igreja da cidade.

Essa tradição homenageia algumas das histórias que são atribuídas a Santo António, sobretudo no auxílio para reunir o dote necessário para que as jovens sem condições financeiras pudessem se casar e também por intervir em uma lei regional italiana que tinha como regra que o casamento somente poderia ser feito com pessoas da mesma classe social.

Mas ele é um santo de intensa devoção em Portugal, muito além dessa relação matrimonial. Santo António ajuda a encontrar objetos perdidos (como São Longuinho, no Brasil) e oferece apoio emocional a quem deseja reencontrar sua fé.

6. Na Igreja de Santo António há uma imagem que resistiu ao Terremoto de 1755

Todo dia 13 de junho, às 17h, sai da Igreja de Santo António em procissão por Alfama uma de suas imagens mais interessantes presentes na cidade de Lisboa. É a própria imagem do altar-mor da Igreja de Santo António. Ela resistiu ao famoso Terremoto de 1755 – que destruiu uma parte muito expressiva da cidade.

A Igreja de Santo António, na época, caiu por completo. Aquela que vemos hoje foi construída no final do século 18. Além dessa imagem tão bonita da capela-mor que resistiu a tragédia, também é possível visitar a cripta – aquele espaço subterrâneo da casa original dos pais de Santo António, chamado de Quarto de Santo António, que já comentei por aqui.

Quer conhecer mais sobre a imagem dele? Veja aqui o nosso artigo sobre o museu de Santo António em Lisboa

Museu de Santo António

O Museu de Santo António, em Lisboa, conta detalhes e curiosidades de sua história

7. Por que se joga um tostãozinho a Santo António?

Como já comentei, em 1755 Lisboa passou por uma terrível tragédia: um terremoto seguido de tsunami e de grandes incêndios. Isso fez com que diversos edifícios do centro da capital fossem destruídos – a Igreja de Santo António inclusive.

Com falta de recursos para recuperá-la imediatamente, os fiéis passaram a doar dinheiro a um novo projeto que seria reerguido do zero. Vieram fundos até mesmo do Brasil.

Em Lisboa, algumas crianças passaram a construir tronos a Santo António, ou seja, pequenos altares feitos com materiais diversos para arrecadar dinheiro para a construção da igreja. Os moradores, então, arremessavam moedinhas ao trono, portanto, um tostãozinho a Santo António, para que a igreja fosse reerguida.

Ainda hoje a tradição dos tronos permanece. A Câmara Municipal de Lisboa promove anualmente, ao longo do mês de junho, um concurso para que a população monte o seu trono e exiba-o na porta de suas casas, tornando a festa dos Santos Populares ainda mais colorida.

Já o tostãozinho a Santo António hoje é arremessado pelos fiéis na cripta da igreja – no pequeno altar do Quarto de Santo António – para ajudar em sua manutenção.

8. O pão de Santo António significa fartura – e não só

Na porta da Igreja de Santo António, em Lisboa, é vendido o Pão de Santo António diariamente. A ligação do santo com o pão vem de uma história atribuída a ele em que, um dia, vendo tanta gente sem ter o que comer, pegou todos os pães do convento em que vivia e os distribuiu.

O padeiro do convento, quando percebeu que não havia mais pães, achou que eles tinham sido roubados. Santo António, sentindo o quanto estava aflito, pediu que voltasse ao mesmo local em que os tinha deixado e observasse com mais calma. O padeiro se surpreendeu quando encontrou muitos cestos cheios de pão, que não só alimentaram os frades como também a população.

O dinheiro hoje arrecadado com a venda do pãozinho de Santo António é direcionado a uma instituição de crianças carentes em Portugal. Já as doações da caixa de esmolas da igreja dedicada ao pão de Santo António é convertida em alimento para a população menos favorecida de Lisboa.

Quem compra o pãozinho pode guardá-lo pelo tempo que for que não cria bolor. O ideal é fazer um pedido no próximo Dia de Santo António e comê-lo. Como estará durinho (apesar de bem leve. Parece até um biscoito), poderá molhar no leite ou no café, por exemplo, para comer.

No Brasil, os fiéis costumam guardar o pão de Santo António no pote de arroz para que nunca falte comida em casa.

9. Ele foi canonizado em menos de 1 ano

Santo António era muito popular na Itália. Sua pregação era ouvida por milhares de pessoas. Quando faleceu, em 13 de junho de 1231, seu corpo foi levado para a Igreja de Santa Maria Mater Domini, em Pádua (onde hoje está instalado o santuário de Santo António) – local em que ele desejava estar quando começou a passar mal e sentia que a morte se aproximava.

Logo, aquela pequena igreja se tornou ponto de peregrinação. No primeiro mês, foram muitas as pessoas que passaram por lá diariamente para pedir ajuda e, rapidamente, para agradecer também por seus milagres. Impressionado, o bispo local enviou um pedido ao Papa Gregório IX para abrir o processo de canonização.

Não completou nem 1 ano de sua morte quando foi canonizado, em 30 de Maio de 1232. Foi também neste mesmo século que iniciou-se a construção da Basílica que está lá hoje instalada, dedicada a Santo António, que incorporou a pequena igreja em sua edificação.

Na inauguração da Basílica, 40 anos após a sua morte, o túmulo foi aberto. Nesta ocasião, todos se impressionaram com a língua que permanecia em perfeito estado de conservação. Aquele que também era seu principal instrumento como missionário. Dessa forma, a língua foi retirada e colocada em um relicário para que os fiéis pudessem vê-la (ainda hoje em exposição dentro da basílica, em Pádua). Se você for a Pádua, recomendo a leitura desse roteiro no blog da Isa, o Itália Per Amore para programar sua viagem.

Relíquia Língua de Santo António

Esta é a relíquia mais importante: sua língua. Ela pode ser vista na Basílica de Pádua, na Itália

Basílica em Pádua

Nós visitamos a Basílica de Pádua, na Itália, que guarda relíquias importantes para a história de Santo António

Esta não é a única relíquia de Santo António. Na Basílica de Pádua há outros pedaços de ossos, além de outros objetos e tecidos expostos. Em Lisboa, na Igreja de Santo António, também há pedaços de ossos em relicários visíveis. Aqueles que podem ser vistos diariamente são o da capela-mor e o da cripta/ Quarto de Santo António.

10. Santo António é o padroeiro popular de Lisboa

Por que eu faço questão de reforçar que Santo António é o padroeiro popular de Lisboa? Porque o oficial é São Vicente (de Saragoça).

Quando o primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques, conquistou a cidade de Lisboa aos Mouros, fundou por aqui diversas igrejas e, claro, para sobrepor seu poder cristão sobre os muçulmanos também precisava nomear um padroeiro a cidade. Foi assim que escolheu São Vicente – bem conhecido na idade média.

Para você ter uma noção temporal, D. Afonso Henriques conquistou a cidade de Lisboa em 1147. Ora, se Santo António nasceu entre 1191 e 1195, São Vicente já era padroeiro de Lisboa há algumas décadas.

Imagem de Santo António no Museu de Lisboa

A notícia da canonização de Santo António chegou rapidamente a Portugal, fazendo com que a população passasse a ter enorme carinho por este lisboeta. Se este homem com tanta expressividade no universo religioso nasceu em Lisboa, naturalmente seu culto se tornaria inevitável.

Apesar de Santo António ser o queridinho, dar nome ao feriado mais importante da cidade e ter sua imagem estampada por todos os lados, há também diversas menções a São Vicente em Lisboa. Mas há uma em especial que eu e o Rafa julgamos a mais divertida delas: dois vitrais lindíssimos na Sé de Lisboa que colocam São Vicente e Santo António, lado a lado, sem rivalidades rs. Para vê-los, basta entrar pelo lado direito da Sé. Perto da capela-mor, antes do acesso ao deambulatório, olhe para os vitrais do seu lado direito.

Não sabe por onde começar o planejamento da sua viagem a Portugal? Veja aqui uma seleção com os artigos mais lidos do nosso blog para organizar o seu roteiro.

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Sobre o autor

Priscila Roque

Sou jornalista especializada em cultura e fotógrafa. Foi preciso passar dos 30 anos para assumir que Lisboa é, realmente, o meu lugar no mundo. Mas a paixão por Portugal começou bem mais cedo, ainda na adolescência, quando descobri alguns músicos locais. Os meus pais são portugueses imigrados no Brasil. Depois de fazer o caminho inverso deles, trocando São Paulo por Lisboa, quero agora, com o Cultuga, diminuir a distância que separa o Brasil de Portugal.

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