Tomar: guia base para visitar o Convento de Cristo

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Se tem algo que eu adoro no centro oeste de Portugal é poder andar poucos quilômetros entre suas cidades e vilas, sempre com boas estradas, e encontrar atrações completamente diferentes umas das outras. Tomar é um desses casos e, por isso, trago hoje aqui uma das experiências mais preciosas dessa região portuguesa, na minha opinião: o Convento de Cristo.

Para essa visita, tivemos o acompanhamento da Sra. Maria da Luz Lopes, do Serviço Educativo do Convento de Cristo, que nos deu uma verdadeira aula durante o passeio.

Lá… Vem… Textão! Há 😛

Como chegar ao Convento de Cristo

Nós optamos pelo carro, pois queríamos aproveitar essa viagem para esticar a visita a outras cidades que adoramos (e que fizemos bons amigos – Alcobaça, Batalha, e Leiria ♥).

Se você pretende seguir de carro alugado para esse percurso, poderá, inclusive, fazer base em Tomar e escolher ainda localidades interessantes em bate-volta, como Óbidos, Fátima, Nazaré, Porto de Mós e tantas outras.

Para quem sai de Lisboa de carro, pode subir direto pela A1, a principal autoestrada do país, e pegar um pequeno trecho da A23 e da A13, com acesso a Tomar. São 140km, ou seja, um pouco mais de 1h30. A partir do Porto o caminho também é feito pela A1 e A13, mas sentido sul, totalizando 2 horas de viagem. Fique tranquilo, pois os acessos a essas estradas são muito bem sinalizados.

A partir do centro histórico, você logo verá o Castelo Templário e Convento de Cristo no topo. Na rotatória da Praceta Alves Redol, siga pela Av. Dr. Cândido Madureira. Ao final dela, vire à direita para subir a Av. Dr. Vieira Guimarães, que já dá acesso ao estacionamento do monumento.

Atenção, apenas, que o estacionamento é pago. Depois de escolher a sua vaga, vá a máquina do parquímetro, insira as moedas equivalentes ao tempo que pretende deixar o carro estacionado, retorne ao veículo e coloque o ticket do lado de dentro do vidro, com o horário pago visível. O ideal é dedicar, no mínimo, 2h para essa visita. Entretanto, se você puder tirar meio período para o passeio, conseguirá conhecer todo o complexo e com mais calma.

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Se você segue de transporte público a partir de Lisboa, poderá optar pelo ônibus ou trem regional. Nos dois casos, o percurso demora cerca de 2h, há vários horários disponíveis e tem um custo aproximado de 10€ o trecho. A partida do trem de Lisboa é nas estações Santa Apolónia ou Oriente (ligação com as linhas azul e vermelha do metro, respectivamente). No caso do ônibus, a partida de Lisboa é da Rodoviária Sete Rios (ligação com a linha azul do metro, via estação Jardim Zoológico). Tanto a rodoviária, como a estação de trem de Tomar ficam a, aproximadamente, 1km do centro histórico.

Chegando a Tomar, você poderá subir a pé até o Convento de Cristo. É preciso alguma disposição, pois tem um pouco de subida, mas é possível. A partir da Praça da República, a principal da cidade, localize o edifício dos Paços do Concelho/ Câmara da Municipal (de frente para a igreja, atrás da estátua de Gualdim Pais) e, atrás dele, suba a calçada medieval de São Tiago (ou Santiago, uma referência ao Caminho Português de Santiago, a partir de Lisboa, que passa por aqui).

O que é o Convento de Cristo?

Essa é uma questão que causa alguma confusão, pois o que chamamos de Convento de Cristo engloba o Castelo Templário de Tomar, o Convento da Ordem de Cristo, a cerca conventual – chamada hoje de Mata dos Sete Montes, a ermida da Imaculada Conceição e o Aqueduto dos Pegões.

Ou seja, trata-se de um complexo monumental, e não apenas de um único convento. Toda essa área foi classificada pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade.

Base histórica para a sua visita

Um ponto importante e que pode ajudá-lo nessa visita, sobretudo para entender o monumento e sua complexidade, é que estamos diante de três conventos. O primeiro deles foi construído no século XII para ser a casa dos Templários: o Castelo Templário de Tomar.

Uma das razões para a construção de um segundo convento tem raízes no século XIV, quando a Ordem dos Templários foi extinguida e Dom Dinis – o sexto rei de Portugal e um dos grandes monarcas portugueses – exigiu uma nova ordem a Portugal. Tal fato deu origem, então, a Ordem Militar de Cristo – que, posteriormente, desempenhou papel fundamental na Era dos Descobrimentos.

Como as terras da Ordem de Cristo davam muito lucro, no século seguinte, precisamente em 1420, o castelo militar foi modificado, originando um convento gótico, impulsionado pelo Infante D. Henrique – uma das principais figuras das navegações portuguesas e também primeiro governador da Ordem. Nessa época, a Alcáçova (a área do castelo que está logo a sua direita, após a passagem da Porta do Sol) foi adaptada para ser a sua casa senhorial.

Já no início do século XVI, mais uma reforma. D. Manuel I (rei de Portugal na época da chegada das caravelas, comandadas por Pedro Alvares Cabral, ao Brasil), o 14º monarca português e governador da Ordem de Cristo, amplia o convento e dá início a uma nova decoração em suas dependências, com referências as descobertas marítimas e a mística da Ordem de Cristo, para reforçar os poderes da coroa e da Ordem e a fé.

Mas foi a partir de 1531, com a profunda reforma da Ordem de Cristo por D. João III (filho de D. Manuel), que chegamos a construção do terceiro convento, esse do Renascimento, que agrega os anteriores. O aqueduto, com 6km de extensão, e os edifícios da Enfermaria e da Botica, são posteriores.

O que eu achei mais bacana foi descobrir que há registros da representação da “Farsa de Inês Pereira”, de Gil Vicente, no Convento de Cristo, em 1523 (há quem diga que essa tenha sido até a primeira vez) 😀

Em 1834, as ordens religiosas foram extintas e os imóveis que não eram de culto público passados ao Estado, deixando locais como este ao abandono e vulneráveis a furtos.

Marquês de Tomar, António Bernardo da Costa Cabral, ainda no início de sua carreira política, adquiriu parte do Convento de Cristo (principalmente a área do chamado Claustro dos Corvos), em 1838, com o objetivo de transformá-lo em seu reduto de férias.

Assim, bancou do seu próprio bolso obras de restauro. No ano seguinte, nomeou guardas para protegerem o monumento e evitar que o restante das obras de arte e partes do convento fossem roubadas.

Até 1942, foram os seus descendentes que o mantiveram (dá uma olhada em toda a cronologia desse monumento).

Quais são os destaques da visita?

A entrada se faz pela Porta de Santiago e a Porta do Sol que dão acesso ao pátio chamado Praça de Armas. Aqui, a partir do seu lado direito, você verá o Castelo Templário.

Parte 1: Castelo, a casa dos Templários

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O início de sua construção se deu no século XII, precisamente em 1160, a pedido de Gualdim Pais, o Mestre da Ordem do Templo em Portugal (aquele da estátua na Praça da República de Tomar), que também era amigo e escudeiro de D. Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal. Formando aqui, também, a sede dos Templários no país.

Área interior do Castelo Templário, que tivemos o privilégio de conhecer

Área interior do Castelo Templário que tivemos o privilégio de conhecer com o apoio do Serviço Educativo

Além da fundação do castelo e da vila de Tomar, o Mestre Gualdim Pais também esteve a frente da construção dos castelos de Pombal, Zêzere (esse, hoje, inexistente), Almourol (um dos meus favoritos no país e que fica bem perto de Tomar, sendo este importante para a própria defesa da casa templária), Idanha e Monsanto.

A partir da Praça de Armas, vemos dois sistemas defensivos que são símbolos desse monumento: o Alambor e a Torre de Menagem (o coração do castelo).

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Localize o laranjal, do seu lado esquerdo. Aqui, começou a ser formada a povoação de Tomar, em uma área chamada na época de Almedina.

Do lado direito está a área chamada de Alcáçova, que era o reduto militar inicialmente, transformado depois em casa senhorial do Infante D. Henrique (na época do convento gótico). Essa parte não está aberta ao público no momento. Porém, durante a visita a uma das partes internas do Convento de Cristo é possível ver essa estrutura interior por cima.

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Parte 2: Capela de São Jorge e Claustros do Cemitério e de Lavagem

A bilheteria se encontra dentro da Capela de São Jorge. O acesso fica a direita, logo após a escadaria. Parece um pouco estranho, pois você precisa passar por um espaço estreito, mas é por essa capela, de 1426, que você vai conhecer a área do convento gótico, com dois claustros na entrada, construídos na época do Infante D. Henrique.

No primeiro deles, o Claustro do Cemitério, estão enterrados diversos religiosos e cavaleiros da Ordem de Cristo. Você poderá ver também o túmulo (de estilo manuelino) do irmão de Vasco da Gama, Diogo da Gama, à esquerda, que foi capelão de D. Manuel.

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Já o destaque do Claustro as Lavagem é a janela que comentei anteriormente, onde se pode observar a área interior do Castelo de Tomar por cima, com as ruínas da casa senhorial do Infante D. Henrique (uma adaptação da Alcáçova) e também habitada por D. Manuel.

Ruínas do Castelo Templário de Tomar

Ruínas do Castelo Templário de Tomar

Note ainda nesses claustros a bonita coleção de azulejos, mas já bem posterior a essa fase.

Igreja Manuelina e Charola

Atravessando o Claustro do Cemitério encontramos a entrada da Igreja Manuelina.

[pausa para uma pequena explicação]

Sabe aquela estrutura enorme e octogonal que nos salta logo a vista, quando olhamos para o monumento do lado de fora? Essa é a chamada Charola.

Ela foi construída ainda na época da Ordem dos Templários, com sua conclusão em 1190. Esse era o local de oração dos cavaleiros e se manteve como espaço religioso ao longo de todas as transformações do Convento de Cristo.

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[retomando…]

No século XVI, D. Manuel decidiu construir a Igreja Manuelina usando parte da Charola. Assim, abriu um arco triunfal para chegar até ela, transformando a Charola em capela-mor.

Na sua visita, você verá primeiro a entrada, com um teto lindíssimo. Fazem parte da igreja ainda a Nave, a Sacristia (chamada hoje de Casa do Capítulo) e o Coro Alto.

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Por cima do Coro, arrematando os arcos principais das abóbadas estão também três símbolos bem característicos do estilo manuelino: a Cruz da Ordem de Cristo, a Esfera Armilar e o Escudo Nacional (se você já esteve em Belém, no Mosteiro dos Jerónimos, que é um dos principais exemplos do estilo manuelino, certamente vai se recordar e identificar essas imagens).

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Dentro, então, daquela forma octogonal está um dos pontos mais bonitos da visita, na minha opinião, que é a área interior da Charola, dedicada a Jesus Cristo e Maria, sua mãe (veja os detalhes nos murais por toda a volta).

Como o convento passou por muitas transformações ao longo dos séculos, essa área guarda muita história, não somente aos nossos olhos atentos, mas também por baixo das camadas e camadas de tinta que ali estão.

Parte 3: o Convento Joanino

Você se lembra de quando eu disse que, na primeira metade do século XVI, houve uma profunda reforma na Ordem de Cristo? Após a morte de D. Manuel, D. João III, seu filho, declarou que todos os religiosos da Ordem teriam que viver em clausura.

Dessa forma, ampliou a área construída para criar o Convento Joanino – esse, renascentista. Assim, os novos claustros passaram a englobar dormitórios, refeitório, cozinha e salas de aulas. Acesse-o pelo Claustro Principal.

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[pausa para voltar no tempo rs.]

Procure por uma pequena varanda, no Claustro Principal, que dá acesso a Janela Manuelina, também chamada de Janela do Capítulo.

Esse é um outro símbolo muito marcante do Convento de Cristo, que faz parte da sua fase gótica, mas que está escondido aqui, pois D. João III, quando fez as obras do convento joanino, bloqueou o acesso a Igreja Manuelina, dentro dos muros do convento.

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[retomando…]

Agora você poderá explorar as áreas do Dormitório do Cruzeiro, onde ficavam mais de 40 religiosos em clausura. Outro destaque dessa área é o Calefatório, uma sala que fornecia o aquecimento aos outros quatros (note que dentro de cada quarto há uma porta. É por ela que passava o ar quente).

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Depois da escadaria ainda se encontra o Refeitório, com dois púlpitos, um de cada lado, para que as leituras e orações também fossem feitas durante as refeições. Hoje em dia, esse espaço é usado para eventos, peças de teatro e até celebrações de casamento.

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A partir daqui, você ainda poderá conhecer o Claustro da Hospedaria, que recebia peregrinos e visitantes, o Claustro da Micha, com a cozinha, a casa do forno e a procuradoria, e o Claustro dos Corvos – aquela principal área do convento que foi comprada pelo Marquês de Tomar para transformar em sua residência de férias, com algumas salas e a Casa das Talhas, onde o azeite era armazenado.

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Ufa! Parece confuso, pois a história dessas três principais fases do Convento de Cristo se cruzam frequentemente durante o passeio, mas garanto que a leitura prévia desse guia vai deixar a sua visita ainda mais rica e mágica, por esse que é um dos monumentos que mais me entusiasmou conhecer em Portugal. Aos apaixonados por cultura, arquitetura e história: sejam bem-vindos 😀

Convento de Cristo
Endereço: Colina do Castelo – Tomar
Ingressos: 6€ (maiores de 65 anos pagam meia). Grátis no 1º domingo do mês. Grátis também para crianças até 12 anos e visitantes com mobilidade reduzida
Visitas guiadas: 60€/ grupo (máximo de 30 pessoas) – necessário agendar
Horário: de outubro a maio, das 9h às 17h30. De junho a setembro, das 9h às 18h30. A bilheteria fecha 30 minutos antes do encerramento diário. Fechado nos dias 1 de janeiro, domingo de Páscoa, 1 de maio, além de 24 e 25 de dezembro
Contato: www.conventocristo.pt

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Sobre o autor

Priscila Roque

Sou jornalista especializada em cultura e fotógrafa. Foi preciso passar dos 30 anos para assumir que Lisboa é, realmente, o meu lugar no mundo. Mas a paixão por Portugal começou bem mais cedo, ainda na adolescência, quando descobri alguns músicos locais. Os meus pais são portugueses imigrados no Brasil. Depois de fazer o caminho inverso deles, trocando São Paulo por Lisboa, quero agora, com o Cultuga, diminuir a distância que separa o Brasil de Portugal.

6 comentários

  1. Adorei o texto Priscila, vale comentar que a loja do convento é simples mas muito boa para levar uma lembrança e o café que fica no estacionamento e ótimo e o preço também!

    • Priscila Roque
      Priscila Roque em

      Que delícia, Josélia! Espero que aproveite bastante o nosso guia 😀
      Um grande abraço e uma excelente viagem

  2. Francisco Santos em

    Lindo texto! Estive em Portugal recentemente mas não tive a oportunidade de ir a Tomar. Mas prometo que irei e não deixarei de ir ai no Convento de Cisto.

    • Priscila Roque
      Priscila Roque em

      Olá, Francisco
      Tudo bem?
      Obrigada pelo carinho 🙂 Tenho a certeza de que vai adorar Tomar, quando retornar a Portugal!
      Seja sempre bem-vindo!

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